Tuesday, October 03, 2006

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Sunday, July 09, 2006

A Aberração

Ele nasceu um estranho. Era corcunda e manco. Tinha escamas pelo corpo. Gostava de viver no escuro. Só saía de noite apenas. O seu rosto era muito disforme. Um dos seus olhos não se abria direito. Seus dentes eram tortos e separados. Andava com certa dificuldade. Forçava o pulmão para poder respirar. E chiava quando respirava. Sentia dores pelas juntas. Tinha menos de um metro e vinte. E já passava dos seus quarenta anos. Nunca teve uma mulher. Não sabe o que é um carinho. Sua mãe o rejeitou quando criança. Viveu escondido de tudo e de todos. Falavam que ele era filho do mal. Nunca teve um amigo sequer. Esqueceu-se que podia tambem conversar. As suas lágrimas, fizeram um sulco profundo sobre seu rosto. As sua roupas eram trapos velhos que encontrava perdidas por aí. O seu pé direito era torto e não podia calçar um sapato. A sua mão era calejada. Os dedos, não se encontravam. Mal segurava as coisas. E ninguem nunca lhe dava comida. Comia o que achava pela frente. Muitas vezes seu cardápio era feito de ratos... de sapos... aranhas ou, de capim. Vivia distante da cidade. O pantano era o seu verdadeiro destino. Sentia muito frio, as vezes. E as vezes, não conseguia dormir devido aos mosquitos. Tinha muitas feridas no corpo. Era caçado como se fosse um animal. Diziam que ele era anormal. Então, precisava fugir para não morrer. E se enfiava em tocas. Tocas de serpentes. Nos brejos. Onde moravam escorpiões. Dentro de todo tipo de mato, onde havia armadilhas. Não conheceu o que é estar em paz.
Até um certo dia... quando viu tochas acesas, vagando dentro da noite. Uma comitiva grande, de fazendeiros... arruaceiros e, tambem os agregados. Todos querendo a sua pele. Todos querendo o seu corpo. Todos eles querendo mandar a sua alma para os confins dos infernos. Pois diziam que de onde, ele jamais deveria ter saido. E ele viu o ódio em cada olhar... em cada rosto... em cada coração que desfilava naquele cortejo fúnebre nas altas horas daquela madrugada. Foi quando sentiu que não havia saida... eles o estavam cercando.

Agora era dificil de fugir. Finalmente, eles cumpriram o que prometeram. Iriam acabar com ele essa noite. Mas... porque? O que foi que ele fez? Pois o único mal que possivelmente existiu em sua vida foi o fato de ter nascido dessa maneira... como se fosse uma coisa... uma aberração! Ele agora estava assustado. Em sua frente, apenas o lago estagnado. À sua direita, era a trilha que o levava pro mato. Lá, eles certamente o estavam esperando. À esquerda, ficava a vila mais próxima. E para lá, tinha a certeza de que não poderia visitar. Só lhe restava o sul. Eram as montanhas... com suas grutas, as suas tocas... jararacas e surucucus!
Não! Não tinha um lugar sequer que pudesse lhe abrigar. Então... resolveu esperar. Se hoje fosse o dia da sua morte... que fosse agora... de que adiantaria continuar vivendo, se... teria que viver sempre dessa maneira. Como um acuado... abandonado... maltratado e, certamente... amaldiçoado!- Vamos lá, gente! - Disse um dos fazendeiros - Eu tenho certeza de que ele está por aqui... há dias que estamos cercando... e ele não foi mais a nenhum lugar. Vamos acabar com essa coisa ruim que mora aqui, nesse pantano!- Será que estamos fazendo a coisa certa? - Perguntou um dos rapazes que estava acompanhando a comitiva. - Afinal, ninguem sabe ao certo o que é aquela coisa...Dúvidas, dúvidas... enfim... nem todos concordavam, mas... o que se podia fazer? Era resoluto! A decisão já estava tomada. Então... que se cumprisse a lei!E ele estava quieto! Amontoado sobre o seu próprio corpo. Fingindo ser um monte de qualquer coisa. semi-encoberto por algas e matos. Mal conseguindo respirar. E assim permaneceu durante o tempo que fosse necessário para que, pelo menos, eles pudessem dar uma chance de se ver livre pra escapar. Mas... escapar de quem? E, por onde? Havia até perdido a noção de onde estava e, para onde seguir. Mas... ele tambem viu uma coisa diferente... aquilo ali não era comum como os mesmos que sempre o perseguiam... o que seria aquilo? Que andava justamente em sua direção?

Parecia... parecia ser um daqueles homens em miniatura... de calças curtas... e uma forma feliz em sua expressão. Pelo menos a ele, era muito diferente...

- Onde está o meu filho? – Perguntou um dos homens que acompanhava aquela procissão. – O meu filho... ele se afastou de mim... pelo amor de Deus! Procurem o meu filho... Não o deixem sozinho, perto daquela coisa... salvem o meu filho!
- E porque é que você resolveu trazer o seu filho, seu idiota! Não ta vendo que isso é uma caçada? – Respondeu com uma pergunta, o fazendeiro que liderava todo o grupo.
- É que... bom... por favor! Não deixe que nada de mal aconteça a ele, por favor!

O que deveria fazer agora? Aquilo já estava do lado... batendo em sua corcunda como se fosse um tambor! Será que se arreganhasse os dentes, colocaria ele pra correr? Mas... e se ele fosse tão violento quanto aqueles que carregavam as tocha e as espingardas? Como estaria no minuto seguinte? Então se lembrou de... quando ainda era um pouco mais jovem... quando ainda podia entender de que a vida não é só feita de coisas tristes... coisas más... e, todas as coisas que o haviam machucado, lembrou que existia borboletas sobrevoando as flores e, que havia um nascer do sol sempre que a chuva caia e, alguém, um dia, não se lembrava da onde, apareceu assim do nada e, lhe esticou sua mão... Ele não sabia o porque, mas... se sentiu tão aliviado naquele instante que, pensou até que já havia morrido e, alguma coisa mais poderosa do que tudo isso que ele conhecia na vida, deixava de ser sem sentido... Uma única vez! Mas... foi tão bom! Quem...? Quem foi aquela alma bondosa? E porque aquele olhar tão profundo? Porque aquelas chagas nas mãos? Porque o chamou de “Meu Filho” E porque se elevou para os céus?Quem era aquele homem que justificou todo o motivo para estar ali até hoje e, ser caçado, julgado, condenado e amaldiçoado? Quem era aquele que agora estava colocando a mão sobre as suas costas disforme? O que ele queria? E o que poderia fazer? Será que ele por si só já era diferente?

- Lá... lá esta a coisa... atirem nele! Matem-no!- Nãããããoooooo! É o meu filho quem está lá. Não atirem! Não atireeeemmmmmm!

Mas... - " BANG " -

Alguem atirou! Um único tiro! Um tiro certeiro! Um tiro que se despreendeu de dentro da vontade louca, que todo assassino tem, quando quer matar. E o projétil se delocou de sua câmara, alojando-se frente ao gatilho, sendo acionado por uma explosão, fazendo-o viajar secamente por dentro do cano, deslocando o ar e, perfurando a existencia do vácuo que ficava em sua frente, até atingir o seu objetivo, dezenas de metros depois. Com a precisão de quem atira a milimétricamente em seu alvo. Num estampido sonoro, tanto quanto a espoleta estourou e, ao penetrar na carne, manchando de rubro a madrugada sem fim...

- Filhoooooooo! Voces atiraram em meu filhoooooo! Assassinos! Voces mataram o meu filhoooooo!

E quando o homem chegou perto da criança caida, notou que ela estava protegida por aquele monte de qualquer coisa sangrando, ali na sua frente...

- Filho! Vo... você não se machucou? Está tudo bem? Fale com o pai, filho! Fale...
- Eu estou bem, papai! O homenzinho debaixo do mato me puxou para o chão... mas... eu acho que ele está machucado!
- Graças a Deus! Obrigado Senhor! Muito obrigado! - Disse o pai, olhando para o céu e se afastando imediatamente dali!
- Pai... e o homenzinho? - Perguntou o menino.
- Vamos embora daqui! Eles vão dar cabo dele! Não se preocupe... - Respondeu!

Agora... nada mais a fazer! Esperar ou, se entregar... Servir de alvo para a carnificina humana ou, deixar que as coisas acontecessem, como alguem superior a ele, quisesse?A respiração que já era dificil, agora lhe faltava. A dor em suas costas era muito mais forte do que o instinto de preservação. Mas... sentiu que ainda poderia rastejar. Quem sabe, até o lago negro estagnado. Quem sabe...E como uma poça de lama, misturada as lágrimas que persistiam em escorrer pelo seu rosto, junto ao sangue, ele entrou naquelas águas. Ficando submerso, exatamente por cem longos dias.

“Até quando... ele abriu os seus olhos, novamente! Mas dessa vez... ele estava irado!”

Monday, July 03, 2006

Desabafo...

É estranho, escrever um sentimento próprio. Embora... falar seja muito mais dificil. Principalmente, quando não se tem ninguem para falar.
Eu, como uma pessoa comum, houve um dia em que uma outra pessoa, tambem comum, veio me perguntar se sou feliz. Ora... "Claro que sim!" - Respondi. Mas... acho que fui leviano. Ninguem deve responder assim, de repente, sem antes analisar o seu eu interior...
Ninguem está habilitado a dizer, de prontidão se é ou não feliz. Isso exige uma série de fatores, a serem colocadas em questão: E uma delas, é a sua própria verdade!
E o quanto de verdadeiro você é contigo mesmo? Será que, respondendo apenas "Claro que sim!", estaria sendo honesto o suficiente pra não ter mais que argumentar?
Poxa! Seria tão fácil... acreditar que os momentos de felicidade fossem pra sempre... e que, depois de uma rápida análise, você descobrisse que, realmente é feliz!
Pois é, esse foi o meu erro! Pensei exatamente dessa maneira, mas... agora é que são elas...
A vida, não é bem assim. Estamos aqui, justamente, para termos que obrigatóriamente, conhecer o certo e o errado; o bom e o ruim; a felicidade e, tambem a tristeza!
E de repente... me senti uma pessoa muito triste. Não diria infeliz, mas... estava realmente triste. Tendo em minhas mãos... como se fosse uma concha, a segurar um punhado d'água, vendo-a escorrer por entre os dedos, sem nenhuma chance de impedí-la que fosse embora...
Assim é a nossa vida! As vezes, a nossa saúde é esse pouco d'água que está em nossas mãos.
As vezes, essa mesma água, será os nossos filhos, quando soltarem de nossas mãos, indo para o mundo, dizendo não um adeus, mas... um até logo! Ah! Como dói esse até logo!
As vezes, essa água se transforma nos amigos, que com o tempo, vão-se embora!
As vezes, essa água se transforma em vinagre... justamente, quando mais temos sede.
As vezes... essa água, está querendo nos dizer que: "Claro que sim, eu sou feliz!", mas... na verdade, a lágrima que rola logo após, nos denuncia. E é nessa hora que você se sente uma pessoa frágil. Suas mãos estão secas. Nada mais a segurar!
É estranho, escrever um sentimento próprio. Embora... falar seja muito mais dificil. Principalmente, quando não se tem ninguem para falar.

Friday, February 17, 2006

Yahoo! Avatars

Esse sou eu

Quando o arrependimento chega tarde!

Depois...

Cela 23 – Prisioneiro 6201 – Um lápis e um pedaço de papel

“Apesar de nunca ter te amado, só agora percebi o quanto você era importante em minha vida. E, o quanto eu estava errado! Se eu te fiz sofrer... Desculpe-me! O seu perdão, eu sei que jamais vai me dar”.
– Entrega pra mim! – Disse, dobrando o papel.
- De novo? Por que você faz isso, todo dia? Ela vai rasgar mesmo! – Respondeu o guarda.

Antes...

O dia nasceu claro e bonito, depois da chuva que caíra durante a noite passada. Parecia que o ar havia se renovado. E, não existia resquícios de poeira na atmosfera.
A porta se abriu de repente, Luzia estava terminando de escovar os seus dentes quando Walter apareceu no banheiro, agarrando-a por trás...
- Solte-me, Walter! Que foi? Ta pirado?
- Eu quero transar! – Disse o homem, cambaleando, tentando se manter seguro de si.
- Você está bêbado! Onde passou a noite? Na gandaia, por aí?
- Es... queça isso! Eu to afim... de transar!
- Me larga... Pare com isso! Vê se toma um banho! Você ta com um cheiro...
Luzia tentou se afastar, mas... Walter a empurrou de encontro a pia...
- Você... é a minha mulher! Eu preciso... desafogar...
- Você é louco! – Disse, empurrando ele de volta. Só que... Walter conseguiu fazer com que Luzia escorregasse, quando tentou passar por cima das pernas dele. E Luzia caiu, entre o corredor e o quarto, batendo a cabeça na quina do guarda-roupas.
- Pare, Walter! Pelo amor de Deus! – insistia em gritar, limpando o sangue que corria em sua testa. Luzia estava imobilizada pela força brutal do seu marido. Sua calcinha, fora arrancada em um movimento estúpido, machucando-a visivelmente em sua virilha. – Pare com isso, pelo amor de... – E Luzia não pode completar. O tapa que levou no rosto, fez com que se detivesse para não ter que sofrer mais.
Foi quando ela, se arrastando pelo chão, conseguiu chegar até perto da cama. O sapato de Walter, virou a sua defesa! E golpeou-o! Uma, duas, três vezes... até quando ele começou a bater nela como se fosse um outro homem. Walter não mediu a sua força...
A cortina da janela balançou na cozinha da casa ao lado. Dona Francisca já não agüentava mais ouvir aqueles gritos desesperados de Luzia. Pegou o telefone e, discando para a policia, relatou o que estava acontecendo... e, não era a primeira vez!
A porta da sala se abriu violentamente! O policial correu para o quarto... E chegando lá, ainda pode ver o homem ejaculando sobre a barriga de Luzia. O seu sangue, coagulava pelo chão. Ela, havia desmaiado!
Dona Francisca se aproximou, quando Luzia deu sinal que estava restituindo a sua lucidez! A dor na cabeça era grande. A dor em sua alma era imensa! Mas, a dor no coração... esse já não doía mais!

Sala de audiência!

-O senhor foi sentenciado a quatro anos de prisão em regime fechado. E por se tratar de reincidência, foi negado qualquer possibilidade de hábeas corpus! Podem levá-lo!
- Luziaaa!! Luziaaa!! Me perdoa... por favor, Luzia! Me perdoaaaa!
- A senhora tem algo a dizer? – Perguntou o juiz, olhando para a mulher. – A senhora sabe, de que é a única que pode ajudá-lo nesse caso... Quer dizer alguma coisa, antes que o levem?
Luzia retirou os seus óculos escuros. Foi quando Walter percebeu o que fizera com ela. Os hematomas, a lembrança do sêmen e do sangue, todos com gosto de ódio e rancor! Luzia nada disse. Apenas, deu as costas pra Walter. Ali estava um homem, que ela nunca conheceu...

Depois...

"Quando o arrependimento chega tarde... não há o que se possa fazer! Por favor, me perd..." – Walter não pode concluir o que escrevia. A ponta do lápis quebrou. E o papel... se rasgou com o tempo.

Aquele telefonema da vizinha, salvou Luiza de sua mais terrivel condição: Viver com o inimigo dentro de sua própria casa.

Denuncie você tambem!

Fim.

Monday, February 13, 2006

O Templo do Horror

Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac…

O tempo que passa é o tempo que ruge, é o tempo que mata, é o tempo que surge, é o tempo que fere, é o tempo que cura, é o tempo amigo, é o tempo bandido, é o tempo... tic-tac tic...é o tempo...tic-tac...
Meus olhos se abriram dentro da noite... dentro do quarto... dentro do escuro! E a garganta estava seca. Dolorida! Há quanto tempo? Quantos dias mais por aqui? Quantos...?
Os braços presos sobre a cabeça. Os pulsos feridos de tanto roçar na corda. Há quanto tempo? Responda...
Não! Não havia condições... nem sei ao certo aonde estou. Nem o que sou, pra onde vou... E o que será de mim?... O que será, e será! Mesmo assim...
Havia nevado pela manhã. O vento gelado, perpetuava o frio do inverno, não deixando que o sol aquecesse a paisagem branca, que disponibilizava aos meus olhos, àquela hora do dia!
Eu estava sozinho e confuso. Queria ter alguém por perto. Queria falar, sorrir de alguma coisa, queria um amor, queria um amigo! Queria ser gente de novo... queria voltar. Mas, não podia. Eu não sabia...
Por isso, eu sai da cabana. E andei durante horas a fio tentando encontrar um lugarejo, ou uma vila, um bom barzinho e me encharcar, após beber um bom punhado de cafés! Sentia-me triste! Sentia-me só!
As horas eu não me lembro mas, confesso que eu mesmo não me importava. Parecia ser meio dia, ou uma da tarde, sei lá!
Eu encontrei na estrada, o Juvêncio. Menino pobre, analfabeto, um indigente! Vivendo aqui e acolá. O que comia os restos... e sempre, de pés descalços. Naquele dia, cobertos de panos e jornais. Realmente, estava frio!
- De onde você vem, Juvêncio? Existe alguma coisa pra lá? – Perguntei, apontando a direção.
- Sei não, senhor! To vindo do rio, pra lá é deserto!
E dei de ombros, voltando a caminhar. Passei pelo paiol abandonado. Andei nos campos congelados. Em todos os lugares... E nada havia ali!... A não ser eu.
A não ser o caminho. Aquele caminho iria dar em algum lugar. Só precisaria seguir em frente... e escutar o meu coração... o bum-bum bum-bum do meu coração.
Que estranho! Eu sigo em frente, mesmo não querendo andar. Alguma coisa me chama. Agora eu tenho um rumo, um lugar aonde ir! E seguir, é o meu destino...
Uma casa, um templo, um mausoléu! O que era afinal? O que, em nome de Deus, abria seus braços pra mim, convidando-me para entrar? Porque seu clamor a invadir os meus sentimentos, transformando os momentos em um único tormento... o do horror!
- Calma, cacete! Eu já vou... eu... já vou!- Fiquei irritado. – Mas... eu não quero ir...
E olhando de baixo pra cima, aquele imenso santuário negro e imponente, com seu telhado pingando o ódio, a agonia, me senti diminuto... me senti alimento!
E a grande boca, me mostrou a sua língua... já morta!
A porta se abriu, pra revelar todo o horror de cento e vinte e dois anos de sofrimento. O cheiro ácido da vingança. O arrependimento de estar inerte, plantada no esquecimento de sua vida, vivendo do corte da carne ferida, apodrecendo... entregue a sua sorte!
O salão era âmbar, os detalhes em vermelhos, as escadas, uma de cada lado, pareciam seus dentes a sorrir pra mim. Eu estava em seu íntimo! Eu deslizava em seu seio. Aquele tapete me dava as boas vindas.
Eu apazigüei minha intolerância. E me senti o seu filho! Senti-me em paz...
O vento que se fez presente, anunciou a despedida! Era o hálito forte, trazendo o meu passado, minhas memórias. A riqueza do que ainda não possuía. Nenhuma certeza, nenhuma alegria, nenhuma pureza da minha alma, só a vida vazia! Só a vida que eu tinha. Que era quase nada... que era indiferente. Eu estava sozinho e confuso. Queria ter alguém comigo. Queria falar e sorrir, de qualquer coisa, queria um amor, queria um amigo! Queria ser gente de novo... Queria agora estar longe daqui! E distante do inimigo... mas, eu me sentia em paz!
Uma dor dilacerante! E tudo ali dentro escureceu, Foi uma pancada, estou me lembrando... alguém por trás apareceu. E arrastou-me assoalho pra lá, deixou-me no chão. Arrastou-me assoalho pra cá, levou-me ao porão...
O quarto que agora me encontro. O lugar que me fez esquecer... do tempo que eu tinha lá fora... e, que provavelmente, não tornaria mais a ver...

Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac -Tic-Tac…

O tempo que passa é o tempo que ruge, é o tempo que mata, é o tempo que surge, é o tempo que fere, é o tempo que cura, é o tempo amigo, é o tempo bandido, é o tempo... tic-tac tic...é o tempo...tic-tac...
Os olhos se abriram dentro da noite... dentro do quarto... dentro do escuro! E a garganta estava seca. Dolorida! Há quanto tempo? Quantos dias mais por aqui? Onde estavam as respostas? – Tirem-me daqui!
Os braços presos sobre a cabeça. Os pulsos feridos de tanto roçar na corda. Há quanto tempo? Responda...
Não! Não havia condições... nem sei ao certo aonde estou. Nem o que sou, pra onde vou... E o que será de mim?... O que será, e será! Mesmo assim...
Uma nesga de luz! A porta se abriu... Ah! Finalmente, alguém me achou, desvirginou a escuridão. Era o menino Juvêncio! Menino pobre, analfabeto, um indigente! Vivendo aqui e acolá. O que comia os restos... Sempre, de pés descalços. Sorria pra mim!
Sorrindo veemente... os seus olhos esbranquiçados, olhar de demente, sem um futuro, sem um passado. Babando por cima de si. Eficaz e eloqüente! Trazia na palma da mão uma faca, trazia no peito um desejo: ele iria me matar, com certeza, e matar sua fome, ele iria me devorar... ainda vivo!
Havia nevado pela manhã. O vento gelado, perpetuava o frio do inverno, não deixando que o sol aquecesse a paisagem branca, que disponibilizava aos meus olhos, àquela hora do dia! E foi essa minha última lembrança, quando ainda me permitia, desejar um grande amor, desejar uma amizade e ter nessa vida alguma alegria!
O convite! O menino fazia parte da cena. Parte do templo... de todo o meu horror, do dissabor de ser o resto!
Agora, o que eu sentia, era a fria lamina da faca a deslizar sobre o meu peito aberto. E eu, sob as dores intensas, trincando os meus dentes, ainda assim, pude ver e ouvir, o desafinar do meu coração...
bum-bum bum-bum bum-bum bum-bum!!!

Foi quando a luz da minha vida... se apagou.

bum-bum.............. bum-bum...............bum.................b...

Monday, February 06, 2006

A Caçadora de vingança

-Aaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Aquele grito ecoou durante a noite. E permaneceu assim durante muito tempo até calar quando o dia já raiava. Ninguém sabia! Ninguém disse que ouviu! Preferem ficar com os seus ouvidos mocos a darem uma atenção. Assim são os covardes da vida! Sem destino certo... sem uma razão! Sem envolvimento aparente... todos, já sem coração.
O corpo de Ondina foi limpo como deveria ser. E Ondina, esfriando na cama, não poderia conhecer o fruto daquele ódio que a manteve engasgada durante os nove meses de gestação. Ondina fora estupradapela sua sorte de ser empregada, na vida, rejeitada. Acuada pelo patrão! E o lençol vestiu Ondina, pela última vez!
O tempo passou! Emmanuele cantou parabéns, assoprou sua vela de dez e sumiu nos encantos da noite, sua amiga preferida. Emmanuele! Esquisita? Não! Claro que não! Emmanuele era levada... brincando de se esconder, mais nada! O porque do porque de se ficar perguntando:- Por onde anda essa menina? O que ela faz? E porque essa sina? Emmanuele era apenas uma menina!
E novamente o tempo passou! Agora dezoito, a menina cresceu e desabrochou!
Emmanuele fazia na cidade, a alegria! Emmanuele despertava a cobiça em todo homem que a conhecia. E a inveja das mulheres, ela sabia! Sabia, no entanto, que o seu corpo teria um dono. Cabia a ela mantê-lo intacto para ele. E quando ela se pegava na cachoeira, tomando banho, sentindo prazer, passando a mão por entre os seios, em suas coxas, lavando a alma, Emmanuele prometia ao vento, o seu tormento, um dia acabaria. E ficaria finalmente libertada de sua sina, e ser amada! Mas antes...Emmanuele tomou sua última decisão, precisava viajar. Precisava encontrar o tal sujeito, que de sua mãe, foi o patrão. E arrumando suas coisas na valize, deu as costas pra vida, deu adeus para todos, se despediu da bondade, da lealdade, da caridade, em cima da marquise, o lugar mais alto, onde podia ver o pôr-do-sol. Os seus dias agora, seriam só noites, seriam só mortes. Seriam sós.

Jaguaraúna, 15:30 hs – Embarques e desembarques no portão.

A moça da sacola, um livro e nenhuma emoção! Andando , dando tratos à bola, ignorou galanteios, parou no passeio e, localizou a sua estada. Uma casa de má fama, um bordel, um puteiro, e sabe-se lá o que mais poderia associá-lo, ao seu descaso, ao seu fracasso, a casa da mãe Joana!
Emmanuele, bacana! Um top, mini saia e meia de rendinha. Cabelos ao vento, batom e unhas de um vermelho gritante, um sorriso importante, a bolsinha nas mãos. -Quanto, gostosa? – Perguntava o cidadão.
-Pra você é de graça, se me deixar com tesão! – Respondia a ninfa, caçadora de vingança!
E o coitado do homem, feinho que dói, ficando pelado, conseguia ser mais triste do que desgraça em quantidade! Que maldade! Emmanuele ignorou-o por completo. Fez deitar aquele dejeto e, arrancou-lhe de sua vida vazia. Fez ele gosar mais do que devia. O homem se acabou por exaustão! E esse foi o primeiro, um desconhecido. Se, pensava que não poderia, ali estava a resposta... Emmanuele, a gostosa, a fogosa, a tinhosa, ninfa, a caçadora de vingança! Da antiga Emmanuele... só lembrança!
E assim foi mais três ou quatro, antes de viesse a ser uns oito ou nove. Todos felizes, todos de sorte, todos enxergando a Deus, todos esperando a morte!
Emmanuele partiu pra fazenda, queria ser a dama de companhia, daquela senhora bondosa, mulher daquele homem horrendo! Queria escutar o silvo de uma cobra em sua jugular do que possuir o corpo sujo de um homem fedendo. O homem que um dia até poderia chamá-lo de pai! Mas não! Não aquele! Aquele jamais conseguiria perdoar. Emmanuele foi o júri e agora era o juiz. Aquele homem teria que pagar pelo seu erro, pelo seu pecado... Aquele homem teria que sentir medo, muito medo!

- Então... eis-me aqui! A sua empregada. Sua mais nova contratada, eis-me aqui!
- Belíssima! Maravilhosa! Escandalosa de tão linda! Divina, uma rainha!
-São apenas os seus olhos... patrão! O senhor é que é bonito! Um garanhão!
- Você ainda não viu nada... o tamanho... da minha vontade!
- Vi não! Mas... se o senhor, quiser me mostrar, to lá nos fundos, no fundo do saguão!
O homem envolveu suas mãos com as suas mãos. Deu um pulinho no ar, encostou seus calcanhares, deu dois passinhos pra cá e dois passinhos pra lá, assoviou, cantou em espanhol, socou o ar. Mostrou até enxergar a felicidade onde não tinha.
Beijou o Zeca, filho da cozinheira, que gracinha! E foi pro seu quarto se arrumar. Precisava tirar o futum, queria impressionar! Aquela diva... aquela deusa... aquela ninfa!
Emmanuele tapou, os bicos dos peitos, com dois aderentes, aqueles com penduricalhos. Sua calcinha, só mostrava a frente. À parte de trás, era um convite pro... Caramba! Como ela estava bonita! Com ligas pretas e um chicote na mão... Foi quanto pela porta entrou aquele homem, que ela conhecia como patrão. De cuecas largas, camiseta, meias pretas e chinelão.
O homem, parecia alucinado! O membro firme tal qual a um cajado. Avançou sedento pra Emmanuele, que se posicionou aberta para ele. Mas, na hora, disse: “Não!”. Ainda teriam que namorar, brincar, curtir, falar, ouvir dizer: “Ainda te amo” (pai) ou “Eu amo você!” (minha filha). Só que isso não aconteceria, já era tarde, o brilho da lua na noite luzia. Era chegada a hora! Emmanuele, segurou seu chicote, e amarrando o sexo do homem, que gemia, puxou-o secamente, fez-se um estalo no ar, o sangue correu, o homem gemeu e Emmanuele segurou aquilo que voava em direção a sua mão. O homem gemeu mais então. Era o pênis junto ao saco, os cabelos e o asco, e eram os nervos e os músculos, o homem sorria e nada sentia. Emmanuele rebolava, o homem chorava, ela gemia e ele grunhia. Emmanuele ladeou-o e virando seu corpo nu, pegou aquele membro, ainda duro e enfiou...

-Aaaaaaiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!

Aquele grito ecoou durante a noite. E permaneceu assim durante muito tempo até calar quando o dia já raiava. Ninguém sabia! Ninguém disse que ouviu!
Preferem ficar com os seus ouvidos mocos a darem uma atenção. Assim são os covardes da vida! Sem destino certo... sem uma razão! Sem envolvimento aparente... todos, já sem coração.
Emmanuele cuspiu em cima do seu perdão...
Emmanuele pensou em chamar de pai aquele pobre cidadão.
Emmanuele pegou suas coisas e voltou para a estação.
Emmanuele se transformou em um mito:
A caçadora de vingança, a que matou o seu pai, o seu patrão!

O Horror (Essa raça chamada: Humana)

Pouco havia pra se fazer. Novidades eram poucas. A paisagem era igual.
Todos os dias, dia após dia! Uma repetição infinita. Um loop necessário!
Essa coisa que fica na garganta e não se sabe o porque, chamada de garra, nos induz a acreditar sempre e caminhar sempre, mostrar que estamos aqui e, aqui queremos ficar! Mesmo... que haja pouca coisa pra se fazer. Se a paisagem não muda, mudamos nós!
Saiamos por ai, sem rumo sem prumo. Sem destino algum. Que possamos sair dessa tormenta, dessa angústia, dessa escassez de uma vida melhor. Justamente a vida, que ainda não conhecemos, a vida que não nos dá oportunidades. E, as poucas que temos, as raças que se dizem superiores, nos tomam... roubam aos olhos vistos, e não nos pedem licença!
E quando chega à noite... e quando chega o frio... e quando chega a fome! Mas o pior ainda está por vir: É quando os nossos filhos, nos olham fundo, em nossos olhos, procurando por nossas ações, pra lhes contentar com o mínimo que podemos lhes dar, que é justamente a sua comida. Olhamos para um lado, olhamos para o outro, fingimos que olhamos pra eles, e na verdade, sabemos que não conseguimos nem mesmo nos encarar, tamanha a vergonha! Não temos comida para alimentá-los! Não temos nenhuma justificativa. E nos colocamos andar mais uma vez, por ai, sem rumo nem prumo, no vento e no frio, de dia ou de noite, até encontrar mais um que se foi, mais um que morreu!
Morreu de fome! Morreu por causa de uma outra raça.
Nossos dias são tão longos. Nossos anos, intermináveis!
Transforma nossa vida: sem sentido! Porque então permitem que vivamos. Pra que? Respondam alguém: Qual o sentido de viver uma vida sem sentido?
O mais engraçado, é que eles nos chamam de animais irracionais! Desculpem-me! Perdoem-me! Esqueci que, quem vai ler serão vocês! Com toda a sinceridade, me perdoe! É a fome... é a fome! E, se vocês me dão a licença, eu vou andando! Pois voltaremos a caminhar, olhem a fila!
Nossa colônia tem mais de cinco mil lobos marinhos! E todos com fome, todos que a raça humana... ainda irão exterminar!

Wednesday, February 01, 2006

Coisas da vida - Um conto real.

Tarde de sábado – 28 de janeiro de 2006. – BH.

Parece um Deja-vu! Coisa estranha. Duas vezes a mesma cena. Porque será que isso acontece? Será que acontece com todo mundo? A luz no fim do túnel. Será que vou ter que esperar mais nove meses pra reaver a luz no fim desse túnel? E eu pensando que já estava velha com os meus dois meses de idade. Que já sabia tudo, de toda a maldade do mundo. Engano meu! E de quem acredita que, ter cem anos de vida, está vacinado contra as barbáries. Que ter, ao menos, os glorificados cinqüenta, está a salvo das intrigas da vida! Eu vou chorar! Não é assim que se aprende a pedir? Quem sabe, se alguém me ouvir, possa até me recolher, me adotar. E com o seu amor, tentar me amar. Será que sou feia? Será que o meu confinamento é só porque sou uma mulher? Não! Não pensarei assim. Seria cruel! Seria maldoso! Apesar de não compreender as atitudes humanas. Aquela mulher, que eu achava a mais linda das damas, que me ensinava a chamá-la de mãe. Quem era ela? O que foi, que ela fez? Chamou-me de “droga”. Enquanto nessa pouca existência, tudo o que eu fiz, foi deixá-la um pouco mais feliz, mesmo que, por pouco tempo. Eu precisei miar como um gato. Eu precisava chamar a atenção de alguém que tivesse um coração cristão. Que se apiedasse de um pobre saco preto de lixo, boiando dentro da lagoa da Pampulha. Esse é o nome. Projeto lindo, Oscar Niemeyer! Com tantas ênfases e ênfases. Agora eu... quem é que sou? Quem me conhece? Espera aí, tem um buraquinho aqui no saco. Está entrando uma leve brisa... agora, enfim, eu posso ver um pedacinho do céu. E o céu é azul! Eu vejo anjos... eles estão sorrindo. Estão me conduzindo. Ora, estão me levando para a margem. O que é isso? Um pedaço de pau. Alguém está puxando o saco. A luz! Que claridade! O que faço agora? Eu vou chorar, eu vou sorrir. Não! Eu vou agradecer esse nascimento outra vez! Obrigado, Senhor! Eu sei, que pelo menos você, jamais me abandonou! O meu nome, agora vou dizer: é Maria Leticia, muito prazer!

Agradecimentos a José da Cruz, um heroi brasileiro!