Sunday, January 22, 2006

A Legião dos Esquecidos

Sempre me sentava naquela pedra pra ver a paisagem... A terra marrom; o azul pálido do rio; a ponte, com caibros enegrecidos pelo tempo; os molrões de pedra a sustentá-la; o verde da mata, um pouco mais adiante; aquelas duas montanhas que se encontravam por trás das copas das árvores e, o céu nublado que, poucas vezes vi em sua côr azul natural! Eu sempre me sentava ali... eu sempre me refugiava ali...Algumas vezes, levava comigo a vara de pescar. Por outras vezes, talvez muitas vezes, eu ia lá só pra dormir. E me sentia bem! Envolto de toda paz daquele lugar. Uma vez eu ri sózinho... pensava que, por causa da solidão, eu poderia estar mortinho de verdade! Que eu era uma assombração! E que ali era os meus domínios... ninguem poderia me desbancar.Por outras vezes, aquele refúgio, qu'eu já chamava de lar, abrigou meus prantos tristes, e eu nem tinha mais vontade de voltar. Eu não queria mais sair dali! E não queria mais viver fora dali...Incrível! Os meus domínios estavam agora ameaçados. Passou um avião muito rente às arvores. E foi se chocar bem perto das montanhas. O que será que aconteceu? O barulho... aquele barulho ensurdecedor e agonizante, feriu meus tímpanos, assustou os pássaros, fez fugir os poucos animais que ali moravam... assim como eu, ficaram apavorados! E desapareceram.Eu, pelo meu lado, corri de encontro ao vento, atravessei a ponte e adentrei no mato, buscando uma picada, sei lá, alguma trilha que me levasse até o local da explosão! Se houvesse uma mínima chance para socorrer alguem, eu estaria por alí, naquele lugar que era parte do meu ser. Eu estaria por perto!Cheguei a cair algumas vezes! Por outras vezes, me perdi do caminho... mas minha velocidade não se alterava. Precisava seguir em frente. E sentia que alguem , de mim, tambem precisava. O meu coraçao ja me falava alto: "Vá, siga em frente!" E eu fazia sem ao menos olhar pra trás!Mas o que encontrava no caminho, dizia que não seria tão fácil assim... corpos mutilados, panos ensanguentados, até onde iria meu horror?
Infelizmente, o meu horror ainda, nem havia começado. Ao passo que subia a montanha, encontrava o mato pegando fogo; alguns animais esquartejados; um monte de malas e bolsas em um raio enorme, tudo estava espalhado. Não havia sequer menção de uma vida, além do fogo crepitando, nada! Nenhum som se escutava e nem ao menos, as batidas do meu coração.Que fim mais trágico! Empobrecido pelo esquecimento. Eu perdi a noção do tempo, eu deveria retornar. De nada adiantaria ficar ali. De nada adiantaria chorar ali. Preferi voltar ao meu esconderijo. Já era tarde, eu precisava dormir.Incrível!Desci a montanha da mesma maneira, decepcionado confesso, mas cheio de esperanças! Quem sabe, alguém se salvou. Um adulto! Alguma criança! Não me importava quem fosse, Precisaria ajudar. E fiquei a olhar nos caminhos, nas trilhas e picadas, um movimento qualquer.E mesmo assim, eu não olhava pra trás. Precisou um pássaro voar, vindo ao meu encontro, e me jogar de costas no chão: “Que pássaro maluco!... maluco não!” Foi então que percebi: Havia uma verdadeira legião atrás de mim!Eram as pessoas do avião, que haviam morrido na explosão. A legião dos esquecidos! Pediram-me ajuda, pediram-me abrigo! E então, descemos a montanha. Voltamos direto à ponte, chegamos naquele lugar. Eu não sabia o que fazer com eles. Resolvi então, orar! E pedi a Deus por cada um deles... que os aceitasse como filhos, como amigos. Se na Terra não foram lembrados, ao lado de Deus não seriam esquecidos! E todos eles sumiram, assim como encanto, assim de repente! Eu não sabia se chorava de tristeza, não sabia se chorava de contente!O que importava era que sempre me sentava naquela pedra pra ver a paisagem: A terra marrom; o azul pálido do rio; a ponte, com caibros enegrecidos pelo tempo; os mourões de pedras a sustentá-la; o verde da mata, um pouco mais adiante; aquelas duas montanhas que se encontravam por trás das copas das árvores e, o céu nublado que, poucas vezes vi em sua côr azul natural! Eu sempre me sentava ali, e ali todo dia, passei a orar.
E por incrível que pareça, cada cena vivida por mim, cada gesto meu, não era coerente! A explosão para eles, foi o limiar da terra com o céu. E fez com que os espíritos andassem seu uma direção. Porque não os enxerguei? Porque um pássaro a me mostrar? Eu lembro... lembro de todos os seus rostos, com seus olhares de quem ainda não conseguia compreender, que agora já eram etéreos, purificados. E que, não mais pertenciam a essa vida. Que foram, minimizados!Mas eu estava ali... naquele lugar... que eu não entendia o porque de considerá-lo só meu. Parecia que, eu já sabia o que iria acontecer. E porque?Por que eu não tinha mais vontade de voltar? Porque considerar ali, o meu lugar? Meus ideais; minha familia; as pequenas coisas conquistadas; os meus amigos! O que será que houve em meu passado?E quem é essa pessoa que agora se aproxima? Uma mulher... está chorando, está sozinha! E ela vem ao meu encontro. Tento sorrir, tento entender! Ela chama o meu nome... o que está acontecendo? Porque não consigo falar? Porque não consigo viver? Daqueles arbustos, eu a vi se aproximar, ao lado da ponte, o meu lugar favorito! E dedicada, limpava aquele lugar... até descobrir uma pequena cruz! Ajoelhada, em meio aos prantos, soluçando, ela disse mais uma vez pelo meu nome... Foi quando algo aconteceu. Um rio, uma nesga de luz, atrapalhou minha visão. Ecoou no ar e fez-me prisioneiro... Foi quando novamente, me permiti chorar!Agora lembrei! Assim como os espíritos, eu tambem um espírito, eternamente sumirei!Ainda amo esse lugar... Ainda choro esse lugar... E quem vive aqui, igual aquele pássaro: Mesmo em memória, jamais vai o deixar...

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