A Aberração
Ele nasceu um estranho. Era corcunda e manco. Tinha escamas pelo corpo. Gostava de viver no escuro. Só saía de noite apenas. O seu rosto era muito disforme. Um dos seus olhos não se abria direito. Seus dentes eram tortos e separados. Andava com certa dificuldade. Forçava o pulmão para poder respirar. E chiava quando respirava. Sentia dores pelas juntas. Tinha menos de um metro e vinte. E já passava dos seus quarenta anos. Nunca teve uma mulher. Não sabe o que é um carinho. Sua mãe o rejeitou quando criança. Viveu escondido de tudo e de todos. Falavam que ele era filho do mal. Nunca teve um amigo sequer. Esqueceu-se que podia tambem conversar. As suas lágrimas, fizeram um sulco profundo sobre seu rosto. As sua roupas eram trapos velhos que encontrava perdidas por aí. O seu pé direito era torto e não podia calçar um sapato. A sua mão era calejada. Os dedos, não se encontravam. Mal segurava as coisas. E ninguem nunca lhe dava comida. Comia o que achava pela frente. Muitas vezes seu cardápio era feito de ratos... de sapos... aranhas ou, de capim. Vivia distante da cidade. O pantano era o seu verdadeiro destino. Sentia muito frio, as vezes. E as vezes, não conseguia dormir devido aos mosquitos. Tinha muitas feridas no corpo. Era caçado como se fosse um animal. Diziam que ele era anormal. Então, precisava fugir para não morrer. E se enfiava em tocas. Tocas de serpentes. Nos brejos. Onde moravam escorpiões. Dentro de todo tipo de mato, onde havia armadilhas. Não conheceu o que é estar em paz.
Até um certo dia... quando viu tochas acesas, vagando dentro da noite. Uma comitiva grande, de fazendeiros... arruaceiros e, tambem os agregados. Todos querendo a sua pele. Todos querendo o seu corpo. Todos eles querendo mandar a sua alma para os confins dos infernos. Pois diziam que de onde, ele jamais deveria ter saido. E ele viu o ódio em cada olhar... em cada rosto... em cada coração que desfilava naquele cortejo fúnebre nas altas horas daquela madrugada. Foi quando sentiu que não havia saida... eles o estavam cercando.
Agora era dificil de fugir. Finalmente, eles cumpriram o que prometeram. Iriam acabar com ele essa noite. Mas... porque? O que foi que ele fez? Pois o único mal que possivelmente existiu em sua vida foi o fato de ter nascido dessa maneira... como se fosse uma coisa... uma aberração! Ele agora estava assustado. Em sua frente, apenas o lago estagnado. À sua direita, era a trilha que o levava pro mato. Lá, eles certamente o estavam esperando. À esquerda, ficava a vila mais próxima. E para lá, tinha a certeza de que não poderia visitar. Só lhe restava o sul. Eram as montanhas... com suas grutas, as suas tocas... jararacas e surucucus!
Não! Não tinha um lugar sequer que pudesse lhe abrigar. Então... resolveu esperar. Se hoje fosse o dia da sua morte... que fosse agora... de que adiantaria continuar vivendo, se... teria que viver sempre dessa maneira. Como um acuado... abandonado... maltratado e, certamente... amaldiçoado!- Vamos lá, gente! - Disse um dos fazendeiros - Eu tenho certeza de que ele está por aqui... há dias que estamos cercando... e ele não foi mais a nenhum lugar. Vamos acabar com essa coisa ruim que mora aqui, nesse pantano!- Será que estamos fazendo a coisa certa? - Perguntou um dos rapazes que estava acompanhando a comitiva. - Afinal, ninguem sabe ao certo o que é aquela coisa...Dúvidas, dúvidas... enfim... nem todos concordavam, mas... o que se podia fazer? Era resoluto! A decisão já estava tomada. Então... que se cumprisse a lei!E ele estava quieto! Amontoado sobre o seu próprio corpo. Fingindo ser um monte de qualquer coisa. semi-encoberto por algas e matos. Mal conseguindo respirar. E assim permaneceu durante o tempo que fosse necessário para que, pelo menos, eles pudessem dar uma chance de se ver livre pra escapar. Mas... escapar de quem? E, por onde? Havia até perdido a noção de onde estava e, para onde seguir. Mas... ele tambem viu uma coisa diferente... aquilo ali não era comum como os mesmos que sempre o perseguiam... o que seria aquilo? Que andava justamente em sua direção?
Parecia... parecia ser um daqueles homens em miniatura... de calças curtas... e uma forma feliz em sua expressão. Pelo menos a ele, era muito diferente...
- Onde está o meu filho? – Perguntou um dos homens que acompanhava aquela procissão. – O meu filho... ele se afastou de mim... pelo amor de Deus! Procurem o meu filho... Não o deixem sozinho, perto daquela coisa... salvem o meu filho!
- E porque é que você resolveu trazer o seu filho, seu idiota! Não ta vendo que isso é uma caçada? – Respondeu com uma pergunta, o fazendeiro que liderava todo o grupo.
- É que... bom... por favor! Não deixe que nada de mal aconteça a ele, por favor!
O que deveria fazer agora? Aquilo já estava do lado... batendo em sua corcunda como se fosse um tambor! Será que se arreganhasse os dentes, colocaria ele pra correr? Mas... e se ele fosse tão violento quanto aqueles que carregavam as tocha e as espingardas? Como estaria no minuto seguinte? Então se lembrou de... quando ainda era um pouco mais jovem... quando ainda podia entender de que a vida não é só feita de coisas tristes... coisas más... e, todas as coisas que o haviam machucado, lembrou que existia borboletas sobrevoando as flores e, que havia um nascer do sol sempre que a chuva caia e, alguém, um dia, não se lembrava da onde, apareceu assim do nada e, lhe esticou sua mão... Ele não sabia o porque, mas... se sentiu tão aliviado naquele instante que, pensou até que já havia morrido e, alguma coisa mais poderosa do que tudo isso que ele conhecia na vida, deixava de ser sem sentido... Uma única vez! Mas... foi tão bom! Quem...? Quem foi aquela alma bondosa? E porque aquele olhar tão profundo? Porque aquelas chagas nas mãos? Porque o chamou de “Meu Filho” E porque se elevou para os céus?Quem era aquele homem que justificou todo o motivo para estar ali até hoje e, ser caçado, julgado, condenado e amaldiçoado? Quem era aquele que agora estava colocando a mão sobre as suas costas disforme? O que ele queria? E o que poderia fazer? Será que ele por si só já era diferente?
- Lá... lá esta a coisa... atirem nele! Matem-no!- Nãããããoooooo! É o meu filho quem está lá. Não atirem! Não atireeeemmmmmm!
Mas... - " BANG " -
Alguem atirou! Um único tiro! Um tiro certeiro! Um tiro que se despreendeu de dentro da vontade louca, que todo assassino tem, quando quer matar. E o projétil se delocou de sua câmara, alojando-se frente ao gatilho, sendo acionado por uma explosão, fazendo-o viajar secamente por dentro do cano, deslocando o ar e, perfurando a existencia do vácuo que ficava em sua frente, até atingir o seu objetivo, dezenas de metros depois. Com a precisão de quem atira a milimétricamente em seu alvo. Num estampido sonoro, tanto quanto a espoleta estourou e, ao penetrar na carne, manchando de rubro a madrugada sem fim...
- Filhoooooooo! Voces atiraram em meu filhoooooo! Assassinos! Voces mataram o meu filhoooooo!
E quando o homem chegou perto da criança caida, notou que ela estava protegida por aquele monte de qualquer coisa sangrando, ali na sua frente...
- Filho! Vo... você não se machucou? Está tudo bem? Fale com o pai, filho! Fale...
- Eu estou bem, papai! O homenzinho debaixo do mato me puxou para o chão... mas... eu acho que ele está machucado!
- Graças a Deus! Obrigado Senhor! Muito obrigado! - Disse o pai, olhando para o céu e se afastando imediatamente dali!
- Pai... e o homenzinho? - Perguntou o menino.
- Vamos embora daqui! Eles vão dar cabo dele! Não se preocupe... - Respondeu!
Agora... nada mais a fazer! Esperar ou, se entregar... Servir de alvo para a carnificina humana ou, deixar que as coisas acontecessem, como alguem superior a ele, quisesse?A respiração que já era dificil, agora lhe faltava. A dor em suas costas era muito mais forte do que o instinto de preservação. Mas... sentiu que ainda poderia rastejar. Quem sabe, até o lago negro estagnado. Quem sabe...E como uma poça de lama, misturada as lágrimas que persistiam em escorrer pelo seu rosto, junto ao sangue, ele entrou naquelas águas. Ficando submerso, exatamente por cem longos dias.
“Até quando... ele abriu os seus olhos, novamente! Mas dessa vez... ele estava irado!”

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